O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024. O documento conclui que o acidente foi resultado da combinação de fatores técnicos, operacionais, organizacionais e de fiscalização, identificando ao todo 19 fatores contribuintes.
Segundo o relatório, a aeronave perdeu sustentação após enfrentar uma condição severa de formação de gelo durante o voo. A investigação concluiu que houve degradação das características aerodinâmicas da aeronave, culminando na perda de controle e na entrada em um parafuso chato, do qual a tripulação não conseguiu se recuperar.
O Cenipa, no entanto, afirma que o acidente não pode ser explicado por um único fator. Além das condições meteorológicas, a investigação apontou falhas na atuação da tripulação, na gestão da segurança operacional da Voepass e na supervisão exercida pelos órgãos responsáveis.
Entre os principais problemas identificados está a existência de uma cultura organizacional que normalizava desvios de procedimentos. De acordo com os investigadores, práticas que se afastavam dos padrões operacionais acabaram sendo incorporadas à rotina da companhia, reduzindo as margens de segurança das operações.
O relatório também aponta deficiências na gestão de riscos da empresa, fragilidades no treinamento das equipes, falhas na supervisão interna e problemas relacionados ao processo de tomada de decisão durante o voo. Na avaliação do Cenipa, esses fatores contribuíram para que a tripulação não conseguisse interromper a sequência de eventos que levou à perda de controle da aeronave.
Outro ponto destacado pela investigação é a fiscalização considerada insuficiente sobre a operação da companhia aérea. O Cenipa concluiu que o acompanhamento regulatório não foi suficiente para identificar e corrigir, em tempo hábil, deficiências presentes na gestão operacional da empresa.
O relatório apresenta ainda recomendações de segurança direcionadas à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), à fabricante ATR e a outras instituições envolvidas, com o objetivo de aperfeiçoar procedimentos relacionados à operação da aeronave em condições de formação de gelo, ao treinamento de tripulações e ao fortalecimento dos sistemas de gerenciamento da segurança operacional.
Durante a divulgação do documento, o Cenipa reforçou que investigações de acidentes aeronáuticos têm caráter exclusivamente preventivo e não buscam atribuir culpa ou responsabilidade civil ou criminal. As conclusões servem para orientar mudanças que reduzam o risco de novas ocorrências semelhantes.