
Dificuldade para manter a atenção, procrastinação, esquecimentos frequentes e sensação de mente acelerada nem sempre significam Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Embora esses sintomas sejam comuns entre pessoas com o transtorno, eles também podem estar associados à ansiedade, ao estresse crônico, à privação de sono, ao burnout e até ao excesso de estímulos digitais.
O alerta é da neuropsicóloga e professora de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Michelle Andrade. Segundo a especialista, um dos principais equívocos é acreditar que sintomas isolados sejam suficientes para caracterizar o TDAH.
“A principal diferença está na frequência, intensidade, persistência e no impacto que esses comportamentos provocam na vida da pessoa. Todos podem se distrair ou esquecer compromissos em algum momento. No TDAH, esses sinais são persistentes, acompanham o indivíduo há muitos anos e comprometem sua vida acadêmica, profissional, social e familiar”, explica.
Segundo Michelle Andrade, diversas condições podem provocar alterações na atenção, memória e organização, tornando o diagnóstico mais complexo. Entre elas estão ansiedade, depressão, transtornos do sono, burnout, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e até algumas doenças clínicas.
Por isso, o processo de avaliação vai muito além de um questionário ou de uma lista de sintomas.
“O importante não é apenas saber se a pessoa se distrai, mas entender por que ela se distrai, desde quando isso acontece e em quais situações. É essa investigação que permite diferenciar o TDAH de outras condições”, afirma.
A especialista ressalta que o histórico do paciente, a idade em que os sintomas surgiram e os prejuízos causados em diferentes áreas da vida são fatores essenciais para a confirmação do diagnóstico.
Outro aspecto destacado pela neuropsicóloga é a influência do ambiente digital sobre o funcionamento do cérebro.
Segundo ela, redes sociais, vídeos curtos e jogos eletrônicos oferecem estímulos constantes e recompensas imediatas, dificultando a realização de atividades que exigem concentração prolongada, como estudar, ler ou organizar tarefas.
“Muitas vezes, não estamos diante de um cérebro com TDAH, mas de um cérebro cansado, hiperestimulado ou emocionalmente sobrecarregado”, observa.
Apesar de ser um transtorno do neurodesenvolvimento, o TDAH pode permanecer sem diagnóstico por muitos anos. Segundo a especialista, isso ocorre principalmente em pessoas que conseguiram compensar suas dificuldades ao longo da infância e da adolescência por meio de estratégias próprias, bom desempenho intelectual ou ambientes organizados.
Com o aumento das responsabilidades na vida adulta, entretanto, essas estratégias podem deixar de ser suficientes, tornando os sintomas mais evidentes.
“Muitas pessoas conseguem cumprir suas responsabilidades, mas às custas de um desgaste físico e emocional muito grande”, explica.